Antonio Palocci n?o quis "expor" clientes de suas consultorias na entrevista ao "Jornal Nacional"Vitor Hugo SoaresDe Salvador (BA)
Diante dos fatos e discursos mais recentes sobre a crise da multiplica??o da fortuna do ministro chefe da Casa Cilvil, Antonio Palocci, uma impress?o ganha corpo. A de que a presidente Dilma Rousseff est? agora diante do primeiro mandamento do "Dec?logo do Estadista" - A Coragem - proclamado em vida nos quatro cantos do pa?s pelo bravo deputado Ulysses Guimar?es, que h? anos repousa no fundo do mar.
Trocando de alegorias, se poderia dizer tamb?m que o governo petista e seus aliados de todas as plumagens - al?m de boa parte da oposi??o e da m?dia brasileira - est?o diante de uma situa??o bastante semelhante ?quela descrita no filme "Guantanamera", de Tom?s Guti?rrez Alea e Juan Carlos Tabio.
Not?vel tragicom?dia realizada em Cuba (1995) - pa?s coincidentemente visitado esta semana pelo ex-presidente Luiz In?cio Lula da Silva -, que virou "cult" do cinema no mundo inteiro, incluindo o Brasil. S? para avivar a mem?ria dos mais esquecidos: trata-se daquele filme em que depois da morte de uma tia, em Guant?namo, um casal e um amigo da fam?lia partem para enterrar o defunto em Havana.
Uma hist?ria - como a do ministro Antonio Palocci neste Brasil de 2011 - de matar de rir e chorar ao mesmo tempo. Na longa, engra?ada e pungente ?ltima viagem do defunto atrav?s de Cuba, se revelam as entranhas de um lugar corro?do pela burocracia, pela corrup??o, pelas pequenas e grandes trai??es pol?ticas e desmoronamentos di?rios de sonhos sociais. Mas, principalmente, a carnificina cruel causada pelo jogo na disputa de poder nas m?nimas e mais insignificantes coisas.
No primeiro mandamento do Dec?logo de Ulysses est? escrito que o pusil?nime nunca ser? estadista. O autor cita o brit?nico Winston Churchill, quando afirmou que das virtudes, a coragem ? a primeira, porque sem ela, todas as demais, a f?, a caridade, o patriotismo, desaparecem na hora do perigo.
Os de boa mem?ria certamente dir?o que o autor destas linhas j? falou sobre isso em outros escritos. Pura verdade, mas confesso aqui a minha mais profunda admira??o por Ulysses e Nelson Rodrigues, o primeiro na pol?tica, e o segundo na arte teatral e no texto jornal?stico. Ambos ensinaram a vida inteira que a repeti??o - at? ? neurose - ? uma das melhores maneiras de n?o permitir que verdades e ensinamentos relevantes, na pol?tica como no jornalismo, sejam esquecidos ou relegados.
Feito este esclarecimento, repitamos Ulysses Guimar?es em seu Dec?logo mais uma vez: "H? momentos em que o homem p?blico tem que decidir, mesmo com o risco de sua vida, liberdade, impopularidade, ou ex?lio. Sem coragem n?o o far?. C?sar n?o foi ao Rubicon para pescar, disse Andr? Malraux. Se Pedro Primeiro fosse ao Ipiranga para beber ?gua, suas est?tuas n?o se ergueriam nas pra?as p?blicas do Brasil. O medo tem cheiro. Os cavalos e cachorros sentem-no, por isso derrubam ou mordem os medrosos".
Na mosca, grande Ulysses do Brasil! Daqui vai um tributo comovido (que os "politicamente corretos" seguramente chamar?o de "saudosismo de baiano besta") onde quer que esteja o seu esp?rito. Creio, piamente, que ele andar? sobrevoando Bras?lia nestes dias de tumultos e sobressaltos.
Em "Guantanamera", aplaudido e premiado filme cubano, o casal e o amigo conduzem o corpo da tia morta, num caix?o, em um velho carro da funer?ria estatal, em longa e demorada travessia pelo pa?s de Fidel. Viagem cheia de lances que em momentos levam ?s gargalhada ou ao riso contido, mas sempre com a como??o entalada na garganta a ponto de explodir em l?grimas ou solu?os em qualquer ponto de parada no meio da estrada.
No caminho para enterrar o corpo do defunto na capital cubana, caminhos e destinos dos tr?s passageiros se cruzam a todo momento com os caminhos da gente e da sociedade cubana. Al?m de enterrar o defunto em Havana, ter?o de tomar decis?es cruciais sobre relacionamentos afetivos, pol?ticos, ou desnudar d?vidas inc?modas no campo das rela??es sociais e de poder.
"Guantanamera", em s?ntese, ? uma extraordin?ria met?fora cinematogr?fica destinada a mostrar que, se n?o tivermos coragem de tomar decis?es, de arriscar, corremos o risco de passar uma vida inteira de arrependimentos, e, no final das contas, a ?nica coisa que conseguiremos ? transportar cad?veres insepultos por toda uma exist?ncia.
Transposta para a pol?tica, ? esta a met?fora brasileira atual: para o ministro Antonio Palocci, para o governo da presidente Dilma, e para um Pa?s paralisado diante da expectativa de saber o que ser? feito do defunto transportado do carro da funer?ria estacionado agora em Bras?lia.
A conferir.
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