Eppur, si muove


S?rio Possenti
De Campinas (SP)

Eppur...

Freud disse que o homem sofreu tr?s feridas em seu narcisismo: a descoberta de que a Terra (portanto, o homem) n?o est? no centro do Universo, a teoria da evolu??o das esp?cies (n?o fomos criados diretamente por Deus) e a descoberta do inconsciente (fatores que n?o conhecemos nos "determinam").

Talvez se possa dizer que a antropologia e a lingu?stica produziram outra ferida em nosso narcisismo. Descobriu-se que n?o ? verdade que as sociedades que foram qualificadas de primitivas n?o tinham leis ou regras. Assim, n?o h? "primitivos": eles n?o viviam nem vivem como bichos (n?o t?m f?, nem lei, nem rei...). Tamb?m n?o ? verdade que as l?nguas "deles" s?o simples. Eles n?o grunhem! Eles falam seguindo gram?ticas complexas e outras complexas regras "contextuais". S? a total ignor?ncia pode manter erros vulgares como estes (que, para muitos, continuam v?lidos n?o s? para os primitivos, mas tamb?m para o povo).

Nas ?ltimas semanas, ouviu-se troar a id?ia de que estaremos perdidos porque se aceita "os livro" e "os menino pega" (n?o se sabe de onde tiraram o verbo "aceitar" para casos assim). Os que pensam que dizem "os livros" (a forma representa metonimicamente uma l?ngua) acham que os outros n?o pensam (mas n?o citam fonte alguma sobre as rela??es l?ngua/mente). Ora, tem sido constante a demonstra??o de que se pode pensar independentemente de l?nguas ou dialetos. A filosofia e a ci?ncia elaboradas em diferentes l?nguas o demonstram h? s?culos. E as numerosas tradu??es o comprovam - apesar de algumas trai??es (que, ?s vezes, melhoram o original). Pensar n?o depende de pingar um "s" aqui e um "r" ali (o que se demonstra todos os dias).

O vener?vel Dines proferiu duas barbaridades em programa recente na TV: igualou escrever certo a escrever bem (citava Otto Lara Resende) e disse que Os livro p?e em risco a compreens?o. Tenho certeza de que Dinnes compreende os livro. N?o estou "aceitando", estou dizendo que ? uma forma com sentido e que um sujeito como ele certamente a compreende. Insisto: errou feio quando traduziu "escrever bem" por "escrever "certo". O angu nada tem a ver com as al?as.

A peste que a ling??stica "leva" (Freud afirmou que estava levando a peste aos EUA, quando foi l? fazer suas confer?ncias) provoca engulhos nos que pertencem ? nossa elite intelectual, porque falariam certo (mas n?o falam: eu ou?o alguns deles todas as semanas, na TV; outros, esporadicamente; outros, conhe?o ao vivo).

Os que disseram que a Terra girava segundo leis diferentes das que constavam nas "gram?ticas celestes" da ?poca foram amea?ados com a fogueira pelos que tinham certeza de que sabiam como era o mundo. Tamb?m houve muitas persegui??es a defensores das teorias evolucionistas. Os linguistas n?o correm riscos id?nticos, claro (imagino!). Por enquanto, s? est?o sendo amea?ados com manuais bem leves e listas de erros (? "em domic?lio"). Pelo menos por enquanto.

"Eles" pensam que a mudan?a da l?ngua acabou. Que, finalmente, o portugu?s completou seu ciclo, ficou "certo". At? "etimologistas", que listam exatamente mudan?as (que n?o explicam), acham que a l?ngua parou de mudar agora. Estava esperando por eles! Eppur, si muove.

Esquerda?

A burrada das burradas foi a insinua??o de o tal livro seria a defesa da fala "errada" de Lula. Ora, este tipo de estudo se faz h? 200 anos, desde as gram?ticas hist?ricas, logo seguidas pelos estudos de dialetologia e pela escola variacionista. Muitos brasileiros escreveram sobre o tema bem antes dos atuais ling?istas (mas ningu?m conhece a bibliografia!!).

Outros acharam que as posi??es "em favor" da varia??o lingu?stica s?o de esquerda. Ora, n?o s?o! Se lessem Economia das trocas lingu?sticas, de Pierre Bourdieu, ou a Introdu??o ? sociolingu?stica, de Marcellesi, por exemplo, veriam a diferen?a (mas eles n?o l?em!). Os "esquerdistas" chegam a detestar os estudos variacionistas. Consideram-nos funcionalistas, vale dizer, burgueses.

Por que defender esta abordagem, ent?o? Porque ela permite que os estudos de l?ngua cheguem pelo menos ? era baconiana. (Francis Bacon ? o nome do autor do Novum Organon, um fil?sofo dos XVI-XVII. N?o ? toucinho defumado).

Ci?me

Caetano escreveu que "esses linguistas t?m grande ci?me do sucesso que fazem os professores de gram?tica que, oferecendo aquilo de que tem sede a grande massa, ocupam espa?os em jornais e tempo no r?dio e na TV".

Controv?rsias costumam desandar. Quase sempre, quando falta um argumento, os contendores passam aos ataques pessoais. Em vez de contestar uma an?lise, come?am a dizer "? conservador", "? esquerdista", "? invejoso", "? tucano".

As atividades fundamentais de Caetano Veloso t?m muito a ver com sucesso de p?blico, o que talvez explique sua hip?tese. Mas nem todas as pessoas s?o people, nem todos os profissionais aparecem em jornais, em trios el?tricos, na TV, nas revistas semanais, na Caras. Simplesmente n?o faz parte de seu trabalho. Nem de seu mundo. Os linguistas n?o s?o anjos, e certamente t?m ambi??es. Mas preferem ser citados pelos pares a aparecer na TV. E, em geral, s? falam do seu trabalho. Os que eu conhe?o n?o t?m este tipo de ci?me. Talvez tivessem at? vergonha, se aparecessem na TV dizendo aquilo. Como encarar os pares no dia seguinte? E os alunos?

Lembro de Caetano vaiado no Maracan?zinho, enfrentando a multid?o. Gostei. Foi admir?vel.

S?rio Possenti ? professor associado do Departamento de Lingu?stica da Unicamp e autor de Por que (n?o) ensinar gram?tica na escola, Os humores da l?ngua, Os limites do discurso, Quest?es para analistas de discurso e L?ngua na M?dia.
Fale com S?rio Possenti: siriopossenti@terra.com.br Opini?es expressas aqui s?o de exclusiva responsabilidade do autor e n?o necessariamente est?o de acordo com os par?metros editoriais de Terra Magazine. "Quando falta um argumento, os contendores passam aos ataques pessoais", diz linguista sobre cr?ticas de Caetano Veloso
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