Guerrilha, Palocci e estudantes de Vit�ria


Francisco Viana
De S?o Paulo

Cada busca parece ser in?til pois traz a impress?o de que os corpos dos guerrilheiros do Araguaia jamais ser?o encontrados: o Brasil, ao contr?rio da Argentina e do Chile, resolveu n?o julgar os torturados dos anos do regime militar, nem tornar p?blico o paradeiro dos militantes da guerrilha organizada pelo PCdoB na primeira metade dos anos 70. Cada reflex?o em torno do Brasil dos dias atuais tamb?m parece assustadora. Basta ver o que acontece em Bras?lia com o caso Palocci, que n?o chega a um final ?tico, e o confronto, violento, entre a pol?cia e os estudantes na cidade de Vit?ria, onde o governo recorre ? tropa de choque e n?o respeita direitos humanos elementares em nome da ordem. Tudo isso, prop?e a quest?o: que democracia estamos construindo?

O epis?dio da guerrilha encontrou, entre os dia 29 e 30 de maio, uma fato construtivo. A prefeitura de Porto Franco, no Maranh?o, homenageou o m?dico guerrilheiro Jo?o Carlos Haas, dando o seu nome ao Complexo Esportivo da cidade. Jo?o Carlos, o Dr. Juca como ficou conhecido, ga?cho de S?o Leopoldo, no inicio dos anos 70, trabalhou duro para melhorar as condi??es de vida da popula??o de Porto Franco, nas proximidades do Araguaia. Hoje, a cidade luta para se emancipar do Maranh?o. O prefeito, Deoclides Macedo, eleito com 95% dos votos n?o ? do PCdoB, mas do PDT, do venerando Leonel Brizola.

A fam?lia de Jo?o Hass foi representada por sua irm?, Sonia Haas, comunicadora de talento, que tem sido incans?vel na busca do corpo do irm?o, junto com familiares dos guerrilheiros, todos desaparecidos, que morreram em combate (ou sob tortura) a partir de 1972, at? 74. Calcula-se que 76 pessoas morreram. Do PCdoB, foram 59. Se vivo estivesse, o m?dico Jo?o Haas estaria completando 70 anos.

Na mesma semana em que o m?dico foi homenageado, o caso Palocci trouxe aos brasileiros o vento f?tido de um drama que se arrasta h? anos: por que os homens p?blicos n?o s?o submetidos a investiga??es antes de serem escolhidos para cargos importantes? Palocci certamente n?o ficar? no poder e se ficar perdeu a credibilidade. Mas o caso Palocci, ? preciso que se entenda, ? causa, n?o consequ?ncia. O que aconteceu com os antigos ideais do PT? Eis a quest?o.

O homem p?blico ? no sentido filos?fico do ser ? n?o pode, nem deve escudar-se sob recursos legais para n?o prestar esclarecimentos ? popula??o. A presidente Dilma Rousseff sabe dessa nuan?a, todos sabem que quando o interesse coletivo grita ? imperativo que os interesses individuais passem a plano secund?rio. Por que manter Palocci? A presidente precisa ser a primeira a responder a essa quest?o. A presidente e as lideran?as petistas. N?o existe mais o grande homem. O grande articulador, o eleito. Existem sim os interesses. Justamente o que precisa acabar. Se h? um interesse a zelar, este ? o interesse p?blico, o interesse da identidade de um partido ou de um governo. O Rei da Fran?a come?ou a cair quando se come?ou a falar mal da fam?lia real: nas ruas, nas feiras, nos restaurantes. Perdeu-se o respeito pelo que era sagrado. A Revolu??o Francesa veio a seguir.

A verdade ? que o PT precisa se perguntar, e responder, onde foi parar o "eu" transformador da sociedade, herdado da guerrilha do Araguaia e de todos os movimentos antiditatura que tiveram, no pr?prio PT, seu protagonista chave com as greves do ABC. Onde foi parar o "eu" transformador da sociedade? Conhece-te a ti mesmo, eis a f?rmula socr?tica, que Hegel deu dimens?es de consci?ncia hist?rica, que o partido precisa levar ? pr?tica. E levar j?, sob pena de sucumbir ao grande tribunal da hist?ria, o tribunal da sociedade.

Na realidade, o PT virou as costas para as luzes de uma democracia verdadeira, onde a ordem (a lei) ? constru?da pela sociedade no seu movimento. Substitui o homem de esp?rito, consciente, pelo homem econ?mico, que s? pensa no consumo e nos seus interesses. Com isso, abstraiu a pol?tica de massas. Esqueceu as origens. O PT est? se transformando na velha Restaura??o francesa, renegando a filosofia das luzes ? se ? que um dia realmente a abra?ou ? e fazendo preponderar o consumismo, a guerra pelo poder, o privil?gio de personagens como Palocci se esconderem sob o manto do sigilo para n?o explicar como se deu o seu enriquecimento. Leg?timo? Ileg?timo? O ministro precisa explicar. N?o pelo convencimento, mas pela l?gica da exposi??o.

Mas n?o ? s? Palocci. O caso Palocci ? consequ?ncia, n?o causa. ? necess?rio ir fundo. O PT precisa ser refer?ncia como foi o PCdoB nos idos da ditadura. O PT precisa mudar a forma de fazer pol?tica e mudar as rela??es econ?micas. O que ? anacr?nico precisa ser banido de cena. Onde est? o antigo ethos partid?rio?

Por fim, o caso do movimento dos estudantes em Vit?ria. O governo do Estado prende, espanca, joga bombas de g?s lacrimog?neo nos estudantes que desejam passe livre para os ?nibus. Movimenta a tropa de choque (contra estudantes? Logo ser?o os trabalhadores, a gente simples, o cidad?o comum). O que ? uma express?o de vitalidade, a revolta estudantil, passa a ser tratado como uma doen?a. Falta preparo pol?tico aos governantes do Esp?rito Santo. Falta preparo ? pol?cia. O que est? acontecendo nas ruas de Vit?ria n?o ? pr?prio de uma democracia. E nem poderia ser.

A imprensa pode at? ficar momentaneamente ao lado do governo, como parece estar, alinhando-se em defesa da ordem. Mas existe ordem com os pre?os escorchantes do transporte? Quem quebra a ordem: os concession?rios do transporte e o poder p?blico ou os estudantes? Claro, n?o s?o os estudantes. Cedo ou tarde, os governantes do Esp?rito Santo responder?o pelo seus atos repressivos. O Brasil precisa ser revisto de alto ? baixo. A rela??o entre o Estado e os que det?m o poder econ?mico deve ser substitu?da, e j?, pela rela??o entre o estado e a sociedade. Os interesses precisam coincidir. A sociedade precisa se mobilizar.

Jo?o Haas escreveu sua ?ltima carta ? fam?lia em 1968. Dizia que estava "bem". Em 1980, a fam?lia Haas soube que Jo?o estava morto. Nunca encontrou seu corpo, nunca soube exatamente as circunst?ncias. Em cada busca, uma esperan?a renovada. A expectativa de que familiares de companheiros de Jo?o possam superar as lembran?as desse tempo morto, dessa tormentosa assimetria que permanece em segredos n?o desvendados. Pergunta: por que o Brasil que procura a liberdade acoberta essa passado sombrio?

N?o ? o mesmo Brasil que se recusa a se indignar com os fatos que hoje ocorrem em Bras?lia? Os estudantes de Vit?ria v?m dando um exemplo de indigna??o. Que li??es podem ser extra?das do que est? acontecendo nessa cidade de tantos encantos naturais e com uma cr?nica oficial agora t?o triste? A julgar pelas palavras de Jo?o Haas, estamos vivendo um processo. Como ele mesmo lembrou: "Nenhum sacrif?cio ser? feito em v?o." O tribunal da hist?ria saber? julgar os seus r?us, com a vantagem de que esse julgamento, com a Internet e as redes s?cias, n?o fica mais num tempo futuro, remoto devir. O julgamento ? hoje. Agora. Passado, presente e futuro, s?o, de fato, um tempo ?nico. Singular. Um tempo novo que conspira contra os que falam em democracia, mas s? pensam na ordem criada por poucos. N?o a ordem que nasce das aspira??es sociais.

Francisco Viana ? jornalista, mestre em filosofia pol?tica pela PUC-SP, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunica??o. ? diretor da Consultoria Hermes Comunica??o estrat?gica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)


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